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Explorando as epistemologias do Sul com Boaventura de Sousa Santos por professors.press

Por decisão dos organizadores desta página web, o autor original do texto é a própria página web. Os textos são escritos a pedido dos editores da página por professores em Universidades de língua inglesa, sobretudo dos EUA. A selecção bibliográfica é da responsabilidade do autor. Acrescentámos as correspondentes edições em português quando as há.


É do nosso conhecimento que o texto foi escrito por um professor da Universidade da Florida.

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Poucos pensadores da época contemporânea desafiaram com tanta persistência e coragem os fundamentos da hegemonia intelectual ocidental como Boaventura de Sousa Santos. Sociólogo, jurista e intelectual público português de extraordinária abrangência, Santos dedicou mais de cinco décadas à construção de uma obra que não se limita a criticar a ordem global — imagina, com rigor e urgência moral, o que a poderá substituir. Posicionado no cruzamento da sociologia, da filosofia do direito, dos estudos pós-coloniais e da teoria política, destaca-se como um dos teóricos críticos mais influentes do final do século XX e início do século XXI: um académico cujas ideias redesenharam o mapa do que é considerado conhecimento, de quem é considerado conhecedor e do que a justiça realmente significa num mundo marcado por legados coloniais.


Primeiros Anos e Educação

Boaventura de Sousa Santos nasceu em 1940 em Coimbra, Portugal — uma cidade definida pela sua antiga universidade e pela sua complexa relação com a autoridade intelectual e o poder político. Atingiu a maioridade durante o Estado Novo, o regime autoritário de direita presidido por António de Oliveira Salazar, que governou Portugal de 1933 até à Revolução dos Cravos de 1974. Crescer sob o regime de Salazar significava habitar um país onde a dissidência era reprimida, a violência colonial era disfarçada de missão civilizadora e a vida intelectual era controlada pela censura e pela suspeita. Este ambiente político formativo não quebrou a ambição intelectual de Boaventura de Sousa Santos; pelo contrário, aguçou-a de forma irreversível.


Santos estudou Direito na Universidade de Coimbra — uma instituição que viria a ser o berço dos seus mais significativos contributos institucionais. A sua formação jurídica incutiu-lhe uma preocupação duradoura com as questões da justiça, da legitimidade e da discrepância entre o direito escrito e o direito vivido. Posteriormente, viajou para os Estados Unidos para frequentar a pós-graduação na Universidade de Yale, onde obteve o seu doutoramento em sociologia do direito. Os anos em Yale colocaram-no em contacto constante com as ciências sociais norte-americanas no auge das suas ambições teóricas, mas também aprofundaram o seu distanciamento crítico em relação às premissas do conhecimento académico ocidental — um distanciamento que se tornaria a força motriz da sua obra.


Carreira Académica

Santos construiu o seu percurso académico em dois continentes e várias instituições, mas as suas raízes institucionais mais profundas mantêm-se na Universidade de Coimbra, onde ocupa o cargo de Professor Jubilado de Sociologia. Também serviu durante muitos anos como professor visitante e investigador na Universidade de Wisconsin-Madison, um posicionamento transatlântico que lhe permitiu falar simultaneamente a partir de dentro e contra os centros do poder académico ocidental.


A sua criação institucional mais significativa é o Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, que fundou e dirigiu durante muitos anos. O CES tornou-se um dos principais centros de investigação interdisciplinares em ciências sociais na Europa, distinguindo-se não só pela qualidade da sua produção académica, mas também pelo seu compromisso deliberado com a investigação que serve a transformação social. Sob a liderança intelectual de Santos, o CES desenvolveu-se num pólo de estudos jurídicos críticos, pensamento pós-colonial, teoria feminista e estudo dos movimentos sociais — uma personificação institucional viva da sua convicção de que a universidade deve prestar contas ao mundo para além dos seus muros. O seu trabalho abrange a sociologia, a teoria jurídica, a filosofia política e os estudos pós-coloniais e decoloniais, desafiando as fronteiras disciplinares que tantas vezes empobrecem o pensamento académico.


Ideias Centrais e Contributos Teóricos

A arquitectura do projecto teórico de Boaventura de Sousa Santos é ambiciosa no âmbito e radical nas suas implicações. Na sua base reside uma crítica sistemática daquilo a que chama monocultura epistemológica — o pressuposto, tão profundamente enraizado que parece invisível, de que o racionalismo científico de origem europeia constitui a única forma legítima de conhecimento. Contra esta monocultura, Santos desenvolveu um conjunto interligado de ferramentas conceptuais que, em conjunto, constituem um dos contributos mais originais para a teoria crítica das últimas décadas.


Epistemologias do Sul é a pedra basilar do seu projecto intelectual. Esta estrutura insiste que o Sul Global — entendido não meramente como uma designação geográfica, mas como uma condição política e epistémica — produz formas válidas, ricas e insubstituíveis de conhecimento que foram historicamente suprimidas, marginalizadas ou simplesmente tornadas invisíveis pela dominância do pensamento ocidental. Sousa Santos denomina este processo histórico de epistemicídio: o assassinato dos sistemas de conhecimento como parte integrante da conquista colonial e das suas consequências. Epistemologias do Sul não é uma romantização do não-Ocidente; é um apelo ao reconhecimento rigoroso e crítico da diversidade cognitiva do mundo.


Intimamente relacionada com esta obra está a sua Sociologia das Ausências, uma orientação metodológica concebida para tornar visível aquilo que o pensamento ocidental dominante torna invisível ou inexistente. Santos defende que a razão hegemónica produz activamente a ausência — classifica certas experiências sociais, saberes e modos de ser como irrelevantes, primitivos ou impossíveis, e, ao fazê-lo, afasta-os do espaço da legítima preocupação intelectual. A Sociologia das Ausências combate este apagamento, insistindo que o que foi tornado ausente está, na verdade, ricamente presente, à espera de ser recuperado e reconhecido.


O seu conceito complementar, a Sociologia das Emergências, desloca a atenção do que foi suprimido para o que está em processo de devir. Santos identifica possibilidades nascentes e alternativas incipientes que existem no presente, mas ainda não foram plenamente realizadas — sinais no ruído da ordem vigente que apontam para futuros diferentes. Em conjunto, estas duas sociologias constituem uma postura epistemológica singular: atenta tanto ao que se perdeu como ao que ainda pode vir a ser.


A Ecologia de Saberes oferece a visão positiva mais desenvolvida de Santos. Em vez de substituir uma monocultura por outra, propõe um quadro pluralista para um diálogo genuíno entre diferentes sistemas de conhecimento — o conhecimento científico ocidental ao lado de saberes não ocidentais, indígenas e populares — considerados em pé de igualdade. Isto não é relativismo; Santos insiste no direito de criticar o conhecimento a partir de qualquer tradição. Trata-se, antes, de uma forma de democracia epistémica, assente na convicção de que nenhuma tradição detém o monopólio da verdade ou das ferramentas para o desenvolvimento humano.


Talvez a sua metáfora mais evocativa seja a da Linha Abissal. Santos defende que a modernidade opera traçando uma divisão profunda e invisível entre aqueles que estão de um lado da linha — cuja humanidade, direitos e conhecimento são reconhecidos — e os que estão do outro lado e que são tornados invisíveis, sub-humanos ou totalmente excluídos do alcance da consideração moral e epistémica. A violência colonial não foi uma aberração do sistema moderno; ela foi constitutiva dele, conduzida do outro lado de uma linha que tornou tal violência pensável e permissível. A crítica pós-colonial, para Santos, deve começar pelo reconhecimento e pela transposição desta linha.


Por fim, a Tradução Intercultural fornece o procedimento prático e ético através do qual o diálogo entre as diferenças se torna possível. Santos não pede aos diferentes sistemas de conhecimento que abandonem a sua particularidade em nome de um falso universal. Em vez disso, propõe uma prática de encontrar inteligibilidade mútua — de identificar preocupações, lutas e aspirações equivalentes entre culturas — sem reduzir uma aos termos da outra. Trata-se de um trabalho minucioso, parcial e necessariamente incompleto, mas Santos considera-o indispensável para qualquer política genuinamente pluralista.


Principais Obras

A bibliografia de Santos é tão extensa quanto o seu alcance intelectual. Entre os seus contributos mais significativos, Toward a New Legal Common Sense (2002) consagrou-o como uma voz importante na teoria crítica do direito, desafiando a pretensão de universalidade do legalismo liberal e situando o direito dentro de estruturas mais vastas de poder e de conhecimento. Toward a New Common Sense. Law, Science and Politics in the Paradigmatic Transition (1995) ofereceu um diagnóstico abrangente da crise contemporânea do paradigma epistémico ocidental e um esboço preliminar do que poderá vir depois.


The Rise of the Global Left: The World Social Forum and Beyond (2006) documentou e teorizou a emergência dos movimentos sociais transnacionais e o seu desafio à globalização neoliberal, baseando-se no profundo envolvimento de Santos com o Fórum. Epistemologies of the South: Justice against Epistemicide (2014) é talvez a sua obra mais lida e debatida, sintetizando décadas de desenvolvimento teórico numa estrutura coerente e acessível. The End of the Cognitive Empire: The Coming of Age of the Epistemologies of the South  (2018) ampliou e aprofundou este projecto, enquanto Decolonising the University: The Challenge of Deep Cognitive Justice (2022) se volta para o terreno institucional específico da academia, argumentando que uma descolonização significativa requer não ajustes curriculares superficiais, mas uma reflexão fundamental sobre o propósito da universidade e a quem ela legitima.


O Envolvimento Político e o Fórum Social Mundial

Santos nunca se contentou em conduzir a sua crítica da segurança da sala de seminários. Entre as características mais marcantes da sua identidade intelectual está o seu constante compromisso com aquilo a que chama na prática a «sociologia das ausências» — uma determinação em colocar o pensamento académico em contacto genuíno com os movimentos sociais e as lutas populares que as suas teorias abordam. Este compromisso encontrou a sua expressão institucional mais concreta no seu papel como um dos principais arquitectos intelectuais do Fórum Social Mundial, o encontro anual lançado em Porto Alegre, Brasil, em 2001, sob o agora famoso lema: “Um outro mundo é possível”. Para Santos, o Fórum Social Mundial representava precisamente o tipo de tradução intercultural e de ecologia de saberes que tinha teorizado: um espaço onde se pudessem encontrar movimentos da América Latina, África, Ásia e outros lugares, transcendendo as diferenças, sem que uma agenda hegemónica única reduzisse a sua pluralidade à uniformidade. Santos tem-se dedicado profundamente aos movimentos sociais, às organizações da sociedade civil e aos governos progressistas na América Latina e em África, e tem argumentado consistentemente que a energia intelectual mais vital do nosso tempo emana não das metrópoles do Norte, mas das lutas populares da periferia global.


Legado e Influência

O alcance da influência de Santos é verdadeiramente global. O seu trabalho remodelou debates em estudos pós-coloniais, teoria crítica do direito, pensamento decolonial, sociologia do conhecimento e filosofia política. Recebeu inúmeros doutoramentos honoris causa de universidades de diversos continentes — reconhecimento não só da sua distinção académica, mas também da sua rara capacidade de falar com autoridade e seriedade moral, transcendendo fronteiras disciplinares e culturais. Gerações de académicos que trabalham no e sobre o Sul Global encontraram nas suas estruturas ferramentas para nomear, analisar e resistir à violência epistémica que continua a estruturar grande parte da vida intelectual e política. Orientou investigadores em todo o mundo através do CES e do seu próprio envolvimento incansável com jovens investigadores, garantindo que as suas ideias permanecem instrumentos vivos, e não monumentos.


A sua influência é talvez mais fortemente sentida no campo hoje florescente dos estudos decoloniais, onde a sua insistência no epistemicídio e na Linha Abissal forneceu um vocabulário crítico partilhado para os académicos que trabalham nas humanidades e nas ciências sociais. Mas o seu legado não se limita a um único campo. A Ecologia dos Saberes foi incorporada nas humanidades ambientais, nos estudos da educação, na defesa dos direitos indígenas e na teoria do desenvolvimento — um testemunho da genuína fertilidade interdisciplinar do seu pensamento.


Uma Urgência Perene

Numa era marcada pelo ressurgimento do nacionalismo, pelo aprofundamento da desigualdade global e pela crise acelerada das instituições democráticas, a obra de Boaventura de Sousa Santos nunca foi tão urgentemente relevante. A sua insistência em que o mundo é mais rico do que a modernidade ocidental nos permite ver — que os saberes invisíveis, as possibilidades suprimidas e as alternativas emergentes estão por todo o lado, se aprendermos a procurar — não é meramente uma proposição académica. Trata-se de uma aposta moral e política na capacidade do pensamento humano, na sua forma mais disciplinada e generosa, de imaginar e ajudar a construir um mundo mais justo do que aquele que herdámos. Esta aposta, mantida com obstinação e brilhantismo ao longo de uma vida dedicada à erudição, é o que faz de Santos um dos intelectuais indispensáveis ​​do nosso tempo.

 
 
 

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